Liderar é olhar a pessoa além do que ela faz; é olhar para o que ela é

Liderar é olhar a pessoa além do que ela faz; é olhar para o que ela é

Você já teve a oportunidade de assistir ao filme 'Soul', da Disney/Pixar? Esta animação narra a jornada de Joe, um professor de música do ensino médio apaixonado por jazz, cuja vida não evoluiu como ele imaginava. Após sofrer um acidente que o deixa em coma, sua alma é transportada para uma outra dimensão, onde assume o papel de mentor de uma alma chamada 22. O cerne do filme reside na reflexão profunda sobre o propósito da vida, evidenciada quando 22 confronta Joe com as palavras tocantes: “Você inspirou alguém. A vida te deu uma segunda chance”. Por meio dessa narrativa, 'Soul' nos convida a refletir sobre nossas próprias jornadas existenciais e o verdadeiro significado por trás de nossas experiências.

Certamente, você pode se tornar uma fonte de inspiração e influenciar positivamente o sucesso de outra pessoa depois de receber uma segunda chance profissional. Essa oportunidade adicional pode capacitá-lo a assumir o papel de líder, impulsionado pelo apoio generoso de alguém que acreditou em seu potencial.

E por que estou compartilhando isso? Porque, ao longo da história, encontramos inúmeras narrativas de mulheres que desafiaram as probabilidades, superaram adversidades e emergiram como inspirações vivas para todos nós. Dentre essas histórias, uma narrativa particularmente poderosa emerge: a da mulher que abraça uma segunda chance profissional e transforma seus obstáculos em trampolins para o sucesso. E eu posso dizer que sou uma dessas milhares de mulheres que tiveram e agarraram a segunda chance profissional.   

Em um mundo onde a pressão pela perfeição profissional, muitas vezes, oculta a realidade de que falhar é uma parte natural do crescimento, mulheres que aceitam e abraçam uma segunda chance se destacam como verdadeiras líderes e heroínas modernas. Essas mulheres não são definidas por seus tropeços passados, mas sim pela coragem e determinação de aprender com as falhas, reinventar-se e seguir em frente.

Ao longo da história, muitas mulheres enfrentam desafios e falhas em suas carreiras. No entanto, o que as diferencia não é o fato de terem falhado, mas sim como responderam a essas falhas. Em vez de se deixarem consumir pela desilusão, essas mulheres escolheram aprender com suas experiências e utilizar suas segundas chances como oportunidades para crescer e prosperar. Um exemplo inspirador é o de J.K. Rowling, autora da mundialmente famosa série "Harry Potter". Antes de alcançar o sucesso literário, Rowling enfrentou uma série de reveses pessoais e profissionais, incluindo a perda de empregos e o divórcio. No entanto, em vez de desistir de seus sonhos, ela usou sua segunda chance para canalizar sua paixão pela escrita e criar um dos universos ficcionais mais amados de todos os tempos.  

Além disso, não podemos ignorar o impacto das segundas chances profissionais na sociedade como um todo, afinal, quem recebe a oportunidade se sente mais grato, mais feliz, pode proporcionar um recomeço para outras pessoas e ser inspiração.

Voltando ao meu exemplo pessoal, sempre fui uma pessoa dedicada ao trabalho, às vezes, muito rígida, sempre com uma auto cobrança muito elevada para atingir resultados. Uma “máquina”, já ouvi algumas vezes. E resumindo muito a história, enfrentei um grave problema de saúde, engravidei e necessitei alçar este sonho em voo solo e perdi meu emprego. Se para uma mulher com filho é difícil conseguir um trabalho, para uma grávida é quase impossível (no meu caso cumpri a estatística do impossível). Tive que parar, reorganizar meu padrão de vida e minha carreira e fiquei muito fragilizada, afinal, uma outra pessoa dependeria de mim a partir daquele momento. Mas, alguém me olhou e me deu uma segunda chance. E foi uma segunda chance especial, porque foi como líder.  

Na dinâmica complexa do mundo contemporâneo, a liderança emerge como uma qualidade essencial para guiar equipes em direção ao sucesso. Mas, enquanto muitos focam apenas nas ações e nos resultados tangíveis, a verdadeira essência da liderança reside em enxergar além do que uma pessoa faz, e sim o que ela é.

Liderar não se resume simplesmente em direcionar tarefas e monitorar desempenhos. É a arte que demanda uma compreensão das individualidades que compõem uma equipe. Nesse contexto, é fundamental reconhecer que cada indivíduo é único, com experiências, valores e aspirações. Portanto, a habilidade de olhar para além das ações e perceber a verdadeira essência de cada membro do grupo é crucial para uma liderança eficaz.  

E depois de mais de 20 anos de experiência, eu reaprendi a ascender na carreira porque alguém viu a profissional e pessoa que eu era, com qualidades e defeitos, e me tornou uma líder. Eu não nasci líder, mas me tornei uma porque alguém me deu uma oportunidade. A partir daí, eu comecei a olhar para o liderado de forma diferente, porque alguém também já me olhou.

Uma das coisas que aprendi é trabalhar com pessoas que tenham valores próximos aos meus. Ter uma boa história para contar me interessa. Ser do bem, enxergar o simples da vida como intangível, ter aspirações pessoais e profissionais, e ambição, por que não? A questão técnica é possível ensinar.     

Outro aspecto importante é olhar para o diferente de forma igual, porque crescemos nas diferenças. Na minha equipe eu quis ter pessoas diversas, mesclando etarismo, diversidades de gênero, social, racial e pessoas com deficiência. Não quis fazer isso porque a lei exige, mas principalmente pela convicção na riqueza cultural que surge da interseção de diversas experiências e perspectivas. Quando os valores se convergem, as diferenças diminuem, a amizade e a empatia aparecem de forma mais homogênea.

O líder que se propõe a enxergar além do superficial se abre para um mundo de possibilidades. Ele reconhece que por trás de cada conquista ou falha há uma história, uma motivação que molda o comportamento e as escolhas de cada pessoa. Essa perspectiva fortalece os laços de confiança e permite uma abordagem mais humanizada, transparente e personalizada na gestão de equipes. Ao compreender a essência de cada membro da equipe, o líder se torna capaz de orientar de maneira mais eficaz, desenvolvendo o potencial de cada um e valorizando o crescimento pessoal e profissional, promovendo um senso de pertencimento e engajamento.  

E mulheres líderes, que encontram sucesso após enfrentar dificuldades, se tornam modelos e mentoras para outras que enfrentam circunstâncias semelhantes. Suas histórias de resiliência e superação inspiram não apenas quem as conhecem pessoalmente, mas também quem as encontram por meio de seus trabalhos e realizações.


Cristina Tseimatzidis

Cristina Tseimatzidis

Cristina Tseimatzidis é mulher, mãe da Katherini e interessada em histórias de vida. Também sou advogada, com mais de 20 anos de experiencia no mercado segurador. Atualmente ocupo a Diretoria Executiva de Soluções Financeiras e Garantias na WTW Brasil.


Mais artigos


Vídeos em destaque!

Nossos Patrocinadores