A caminho da espiritualidade

A crise atual nos chama à reflexão. E, no limite, nos faz questionar o próprio sentido da vida.


Nas empresas, boa parte dos profissionais passou a considerar a realização como algo mais amplo, que transcende a remuneração, o cargo e o glamour de fazer parte de uma instituição de renome. Esses profissionais buscam mais do que rótulos e poder. Sabem do impacto que lhes causa entregar suas vidas a um ritmo de trabalho estressante; têm ciência de como sua privacidade está ameaçada pelos recursos tecnológicos agora disponíveis; e procuram resistir ao automatismo do mundo moderno. Durante minha jornada profissional, encontrei várias pessoas assim.


O compromisso de encontrar um sentido mais amplo nunca me deixou. Isso inclui o trabalho, mas também a vida pessoal e a construção da família. Em 2018, escrevi um livro com minha filha, “Mamãe dá Trabalho”, sobre o desafio de conciliar a atividade profissional e a condição de mãe. Surgiu da necessidade de dar respostas a diversas inquietações de minha filha sobre meu trabalho e sobre as longas horas dedicadas a ele, em casa ou no escritório. Este sempre foi um desafio para mães que trabalham: a divisão do tempo e como atender a tantas demandas ao mesmo tempo. Comigo não foi diferente.


Em meu livro, digo para minha filha que alguns trabalham com o coração, outros não, alguns trabalham por necessidade, outros por opção. O trabalho sempre fez parte da vida das pessoas e foi por meio dele que as sociedades se desenvolveram. Trabalhar gera satisfação pessoal, conhecimento e desenvolvimento econômico. Por isso, o trabalho sempre foi tão valorizado.


Mas, levando esse raciocínio adiante, devo dizer que o mundo do trabalho também pode ser bastante conflituoso. As relações humanas nem sempre são norteadas por valores nobres. A falta de confiança gera, muitas vezes, uma atmosfera de competição e falsidade. E a insegurança faz com que muitos se engajem em uma corrida desenfreada atrás de objetivos puramente econômicos e individuais. Em algum ponto da corrida, eles precisariam parar e perguntar para si mesmos: afinal, por que estou correndo? Porém esse autoquestionamento é um ato de coragem, que nem todos parecem dispostos a assumir.


Ter a resposta de por que trabalhamos é fundamental. 


O dinheiro é o grande enigma a ser decifrado. Como afirmou o filósofo indiano Aurobindo Ghose, o dinheiro é uma dádiva universal de origem divina que foi usurpada pelo ego. Daí sua luz, daí sua sombra. Se não soubermos diferenciar a luz da sombra, seremos aprisionados pelo fascínio do dinheiro em seu ininterrupto jogo caleidoscópico.


O lucro possibilita que as empresas realizem objetivos maiores. Mas a busca genuína do lucro deve ser norteada pelo propósito. Só assim, as empresas poderão beneficiar não apenas os acionistas, mas também seus funcionários, clientes, fornecedores e a sociedade como um todo.


A espiritualidade é a busca do sentido em tudo que se faz. É a intuição de que todas as nossas ações e seus resultados estão vinculados a um propósito maior. É a convicção de que um poder invisível permeia e sustenta o mundo visível. É a esperança de que podemos superar nossas limitações e comungar com essa realidade transcendental.


Acredito que a espiritualidade esteja fundamentalmente vinculada ao sentido. Quando sabemos por que fazemos o que fazemos, isso nos dá a possibilidade de sermos mais compassivos, generosos e inclusivos.
O caminho da espiritualidade é, para mim, um caminho sem volta. À medida que nos aproximamos do sofrimento, buscamos um sentido para a vida, buscamos entender por que um ciclo se encerra e outro principia, por que sentimos um vazio a troco de nada e depois uma alegria sem explicação. A espiritualidade está presente em nossas vidas como o vento, que não vemos, mas cujo impacto, rude ou suave, devastador ou reconfortante, podemos sentir.


Sem passar por cima das consciências individuais, sem cercear o livre-arbítrio das pessoas, acredito que as empresas deveriam incorporar, não apenas à sua pauta, mas à sua própria essência uma perspectiva mais espiritual. O papel dos indivíduos e das organizações na sociedade pode e deve ser mais amplo.
Importante dizer que espiritualidade não é uniformidade. Quanto mais diferentes formos, mais desafiadora se tornará nossa convivência. E mais enriquecedora também. Pela similaridade, nos relacionamos; pela diferença, nos aprimoramos. As Upanishads, antigos tratados místico-filosóficos indianos, dizem que a Verdade é uma só, embora os sábios a chamem por diferentes nomes. Não precisamos concordar nos nomes. Para ter um vislumbre da Verdade, basta praticar o bem.


Cristina Aiach Weiss

Cristina Aiach Weiss

Atualmente atua como Diretora de RH para o Grupo Swiss Re no Brazil e, América Latina para a Swiss Re Corporate Solutions. Sua contribuição está focada em iniciativas estratégicas de pessoas e negócios da Seguradora na região. É formada em Administração de Empresas com especialização em Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas e Michigan University nos EUA, concluiu seu MBA Executivo Internacional na FIA‐USP e o Advanced Board Room Program for Woman da Saint Paul Escola de Negócios. Se especializou em coaching e técnicas de Investigação nos EUA.